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Minha Vida com a
Qui, 04 de Novembro de 2010 15:44
Homenagem de Fátima Damas à Vovó Maria Conga do Congo

Comemoração ao dia dos Pretos Velhos (13/05/06), realizada no Templo Umbandista da Vovó Maria Conga do Congo, na sede da Congregação Espírita Umbandista do Brasil no Rio de Janeiro.



Em 1961 eu estava grávida de minha 1ª filha quando meu marido soube que em frente ao hospital em que me tratava, uma senhora trabalhava com uma Preta Velha chamada Maria Conga do Congo. Logo ele demonstrou o desejo de ir conversar com a mesma e me levou junto.

Essa Preta Velha disse que eu iria ter uma menina e me perguntou que nome seria dado, indicando-nos o melhor.

Nunca mais lá voltei.

Passaram-se 13 anos e eu já trabalhava num terreiro de Umbanda no Engenho Novo.

Numa noite ao entrar no meu quarto para dormir, curvei-me para retirar a colcha da cama, momento em que não mais consegui ter controle sobre meu corpo. Uma entidade incorporou e saiu andando pela casa ao encontro do Carlos.

Ele estranhou, percebendo de imediato que não era o Preto Velho que se apresentava há 4 ou 5 anos.

Essa entidade pediu um banco para sentar-se e iniciou um longo diálogo entre os dois, quando o Carlos perguntou-lhe quem ela era. A entidade respondeu dizendo: " Você já me conhece há muitos anos", lembrando-lhe o dia em que fomos à casa da médium com quem trabalhava 13 anos atrás.

Ela revelou ao Carlos que naquele dia, escolhera-me para seu médium, pois sentira em mim as qualidades necessárias para o seu trabalho e sabia que aquela senhora com que trabalhava teria poucos anos de vida.

Disse ainda a Preta Velha: " Chegou o momento e aqui estou."

Pediu tudo que precisava para trabalhar, incluindo um cantinho reservado. Informou que toda 2ª feira às tantas horas estaria ali para iniciar o seu trabalho de caridade.

Deu-nos uma ordem de ir de terreiro em terreiro, até que encontrássemos um em que ela tivesse condições de trabalhar. Nesse mesmo dia ela revelou tudo que aconteceria em nossas vidas, inclusive que eu tinha o compromisso de dirigir um terreiro, ao que o Carlos reagiu de forma assustada, falando que de jeito nenhum isso se realizaria, visto que eu não gostava da Umbanda e que só fazia os trabalho sob revolta e protestos.

A Preta Velha respondeu: " Ela vai pular, gritar, espernear, arrancar os cabelos e tudo o mais que puder fazer, mas não vai escapar da tarefa que está destinada à ela", acrescentou ainda

" a última entidade que chegar pedirá o terreiro" e " enquanto vocês procuram o terreiro para trabalhar, ficarei vindo aqui para orientá-los sobre a espiritualidade".

Começava então o nosso calvário. Passávamos os fins de semana visitando os terreiros, mas nada da Vovó gostar de algum. Quando parávamos na busca, ela perguntava " quem mandou parar?, continuem, continuem! ..."

Assim fui conduzindo minha vida e ela atendendo às pessoas.

Quando percebemos o terreiro estava montado desde o primeiro dia que ela chegou. Compramos a casa velha em que morávamos e nos mudamos para outro local.

O Carlos perguntou à Vovó o que deveríamos fazer com a antiga casa e então ela e o seu Tranca-Rua responderam " depois de tantos anos trabalhando aqui, vocês agora querem nos expulsar"... " já demos o que vocês queriam" ... "chegou a hora de fazer um terreiro maior e abrir as portas para quem necessitar". Como ainda tendo dentro de si uma dúvida que precisava ser esclarecida, meu marido indagou: "Vovó, a senhora quando chegou pela primeira vez disse-me que a última entidade que se apresentasse pediria um terreiro, mas até hoje isso não aconteceu!". A Velha respondeu no seu jeito simples e peculiar: " Sá Caio, depois de mim veio alguém?" " Não, Vovó.", disse meu marido. A Preta Velha concluiu: " Então você não percebeu que desde o primeiro dia que cheguei eu pedi o terreiro?! Quando mandei que vocês "corressem gira", olhassem, ouvissem e calassem, era para que não cometessem os mesmos erros que estavam identificando" ... " eu não aceitaria cobranças por qualquer tipo de trabalho que fosse executado no "meu cantinho", este mesmo cantinho que lhe pedi quando cheguei e que você foi arrumando aos poucos. O terreiro foi fundado no dia que cheguei, mas você não percebeu!"

Construímos este prédio e ampliamos os nossos trabalhos espirituais, reinaugurando o Templo Umbandista Vovó Maria Conga do Congo, no dia 26 de setembro de 1999, com uma gira de confraternização de Ibeijada.

Hoje, 14 de maio de 2004, estamos comemorando o dia de Preto Velho com muito amor no nosso coração, muita gratidão e respeito por todas as entidades que trabalham nesta casa e em especial à Vovó Maria Conga do Congo, que me colocou na estrada certa, me doutrinou ... porque eu era muito teimosa e indisciplinada, mas com muita paciência e carinho me ensinou a respeitar e amar a Umbanda da forma com que amo, respeito, conheço e defendo com todas as forças do fundo da minha alma.

Hoje estamos comemorando 30 anos de trabalho juntas, em benefício dos irmãos necessitados e em defesa daqueles desvalidos.

A minha vida tem duas fases: a primeira antes da manifestação da Vovó e a segunda depois da chegada dela.

Hoje não tomamos nenhuma iniciativa sem consultar e ouvir seus conselhos sábios. Ela é a minha fortaleza, meu farol e minha luz.

Sua bênção Vovó Maria Conga!

Obrigada por tudo que a senhora tem feito por todos nós!

Que Zâmbi lhe ilumine cada vez mais!

Muitos beijos e minha eterna gratidão!

Sua filha, Fátima Damas